Domingo, Maio 23, 2010

Entre Aqui e Tudo Mais

Aqui -
enquanto conversávamos
eramos a mulher de bigode e o homem de saia.

Então você sai para tomar banho -
e sei que
enquanto a água derrete por teu corpo nu,
brilhas como Menina Dourada.

É por isso que preciso encontrar a Chave
que destranca todas as almas.

Mr. Six às 12:33 AM

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Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010

Anúncio

Onde está? Não se vê
restam causos. dos bons tempos
onde o triplo nome da vida
espirrou seus feromônios
por aí.

Diz-se Rock e diz-se Roll
mas longo já é o tempo
passado desde que a pedra rolou.
Uns não pegaram. Outros foram pegos
pelo medo. pelo delírio.

E (surpresa) ainda assim
era inevitável que dele necessitássemos
e ainda assim, sem ele,
continuamos.

O rock'n roll morreu.
Estou sim a falar sério.
As guitarras só sabem mugir sua perda.
Pra elas, assim como pra nós,
é questão de vida
(ou morte)
Sua luz, seu poder, sua velocidade
evitou nossos dedos
movida
pelo seu próprio espírito de estrela cadente.

Achamos que as primeiras notas
fossem tudo de que precisássemos
e, contudo, nem sequer as mesmas
hoje sabemos fazer soar.

O que o Outrora toma para si ganha novo brilho
até que age como chama para aqueles
de espírito acidentalmente romântico
que promovem anúncios mórbidos
como este.

(românticos adoram escavar cadáveres)

O espírito do Rock'n Roll
está morto.
Chorem suas lágrimas.

Ou criem algo de novo.



Hino à Diferença

Ó divina discordante!

cujos passos sutis
constituem a dança de inumeráveis formas

cujo raiar é saudado
por libertinos e por entediados

cujos olhos capturam
a densidade da recriação de cada estrela

cujos seios nutrem tanto
a gênese quanto sua filha, agonia

Ó divina discordante!

Seus quadris deslizantes
são a maçã dourada que rola
pelos austeros salões d'ordenamento cósmico.

sua vulva, ferocidade,
arrebenta o estabelecido
num ato de misterioso magnetismo.

seus lábios são derretimento
(mas também derrelição)

seu fronte apenas ostenta
a rigidez inviolável do desconhecido

Ó divina discordante!

Tu que move peões
e por eles inventa a guerra e a paz
e com eles se comove,
enfurece,
gargalha
e dança,
e em eles saboreia
o fino fruto da narrativa.

Tu Que nos veste como máscaras,
olha por vários olhos
e se vê por todos eles
e portanto não se entende.

Ó divina discordante!

matriz do candelabro luminescente das galáxias!

és o que se faz, e também o que se faz do que se faz

Autogeneratrix! Hermafrodita celestial! Ouroboros!

Tu é a sensação e a vontade
e também a impossibilidade dos mesmos.

Tu rege mas teu reinado é a anarquia!

Ó divina! Ó grande! Ó Éris!

Louvada seja!

Mr. Six às 2:50 PM

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Sexta-feira, Janeiro 08, 2010

Epitáfio para o Piu Piu

Suas perninhas ainda tremulam
tenta se virar mas não solta um pio.
Não vemos o machucado
O filho da puta do rato se safou.

Bate uma porrada surda
está morto. Não volta-se atrás
quem vai pegar o corpo?
Parece que sangra. Escorre uma sombra escura.

"Vingança", fala o rapaz.
Vamos matar um rato
pra cada pinto e pato que pagamos.
Mas eu - não sinto nem raiva.
Não sinto nada. É o mundo que vai abaixo.

O rato subsiste. O rato não vai se render.
O rato sabe que quer viver.
Justo! Sem espaço pra ressentimento.
Fico no aguardo dos gatos gloriosos
em sua própria e pura crueldade
de caçador.

Mr. Six às 11:16 PM

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Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Trova abortada

Venho aqui pra vos contar
algo que não se passou.
Pois antes de começar
esta história terminou.

Mr. Six às 2:43 PM

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Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Fala Warren Ellis:

Interviewer: "At what age is it best to crush a child’s dreams so that they have an easier time stepping in to the status quo?"

Ellis: You fool. You do not do such things to children. A child is like a poison missile you aim at the Future. You encourage, fund and resource their dreams to the fullest extent of your capability, knowing that your reward will be the pain and misery of generations yet unborn.

Mr. Six às 5:27 PM

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Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Lemon Drops

Conto ao estilo beat sobre uma viagem ficcional ao Rio de Janeiro

Disponível pra download aqui

Mr. Six às 9:24 PM

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Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Fala Nietzsche:

"Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: "essas aves de rapina são más; e quem for o menos possível ave de rapina, e sim o seu oposto, ovelha - este não deveria ser bom?", não há o que objetar a esse modo de erigir um ideal, exceto talvez que as aves de rapina assistirão a isso com ar zombeteiro, e dirão para si mesmas: "nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso que uma tenra ovelhinha".

Fala Deleuze:

"Peraphs Marx and Freud are the dawn of our culture, but Nietzsche is something else entirely, the dawn of a counterculture."

Mr. Six às 12:30 PM

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Segunda-feira, Agosto 31, 2009

haikai tradicional (vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Haikai )

"Tambora evoé!
Pois respira dionísio
nas tochas do estio."

Iago S. O. Pereira

Mr. Six às 12:02 AM

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Sexta-feira, Julho 31, 2009

O OkCupid acha que sou o Homem Ideal, sei lá porque. Mas eu tava lendo os outros resultados do teste e achei esse aqui:

"The Backrubber

Lusty but indirect. Kind, but also using friendship as a means to sex. Oh, that feels gooood. You are The Backrubber.

We call you “The Backrubber” because you straddle that fine line between coming on to someone and just treating her nicely. Backrubs are just one example; you’d meet for coffee, or talk about books/movies, or even argue a little bit, all the while mostly preferring to screw.

Your indirect approach is not some evil trickery, but rather a result of your open mind. You’d enjoy either love or sex, but the latter definitely doesn’t require the former. While you are responsible and ambitious, you absolutely DON’T have uptight views on relationships. So ultimately, you just enjoy a woman, and let things take their course. If she wants you, great. If not, that’s fine too.

Though you’re not thinking too much about Love at this point in your life, odds are, when the time comes, you’ll be very happy settling down. Your ideal mate is gentle and horny, just like you."


Isso se traduz pra VINAGRETE certo. Não sei se ainda sou isso, mas uau, estou surpreso. Eles me sacaram. (e se eu ainda for um backrubber, COMO FAS pra mudar?)

Mr. Six às 5:50 PM

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Terça-feira, Julho 28, 2009

Axiomática (versão 0.3)

Axioma # 1: Tudo que existe é virtualmente ou atualmente fenômeno.

Axioma # 2: Todo fenômeno é capaz de afeto, ou seja, de ou fazer-se sentir ou de sentir ou de ambos.

Axioma # 3: O sentido, que podemos traduzir por ciência, é o resultado da atualização de um fenômeno, ou seja, de sua atuação sobre outros fenômenos.

Sentido é causalidade.

Axioma # 4: A ciência da própria ciência é a consciência. Tudo que há é ciente, mas apenas o mecanismo de memória ou máquina de tradução é consciente - tão mais quanto mais complexa for a imbricação.

Axioma # 5: A consciência é uma refração do afeto de um fenômeno sobre o próprio afeto, construindo aí uma máquina de tradução ou "algoritmo" - e extraindo daí uma sequência codificada. A algo similar a isso Deleuze chama de Dobramento - o Ser se voltando sobre o Ser.

Axioma # 6: A in-ciência existe apenas virtualmente. Jamais atualiza-se um não-fenômeno, dado o Axioma # 1. Já a inconsciência se produz quando a máquina de tradução ou mecanismo de memória cessam de operar.

Axioma # 7: Todo fenômeno causa afetos e é causado por afetos alheios, possuindo portanto causalidade.

Axioma # 8: A consciência é causada pela máquina de tradução, mas nada causa exceto si mesma, sendo portanto o que podemos chamar de acausal.

Axioma # 9: A ciência de uma ciência torna possível que emerja a ciência de uma ciência de uma ciência, e assim segue, atualizando a virtualidade de um abismo de tradução, ao qual chamamos simplesmente de Abismo.

Proposição A: A crise da pós-modernidade é a crise de tradução, ou de afundamento da consciência em si mesma. Mise-en-abysme.

Axioma # 10: Toda máquina de tradução ou mecanismo de memória implica em algum tipo de aparato de filtragem; rede, membrana ou fibra; algo passa e algo não passa.

Axioma # 11: É a filtragem que distingue o fenômeno, a máquina de tradução ou mecanismo de memória e o código aí produzido.

Axioma # 12: O código produzido não é a consciência, pois há um código toda vez que há interação de fenômenos ou ciência.

Axioma # 13: O código é um fenômeno, pois tudo que se atualiza é um fenômeno (axioma # 1).

Proposição B: As proteínas passam a operar como código genético uma vez que há um mecanismo de filtragem - membrana celular e posteriormente carioteca - e um mecanismo de output - a produção de um novo corpo celular - ou seja, constituindo uma máquina de tradução ou memória que funciona por reprodução.

Proposição B-2: As células possuem consciência.

Axioma # 14: Não há consciência sem filtragem, ou seja, sem rede ou membrana ou fibra. Caso não houvesse não haveria mecanismo de tradução, havendo portanto apenas fenômenos e suas ciências com seus códigos.

Axioma # 15: Todo fenômeno se atualiza numa dada velocidade e com uma dada duração (frequência e amplitude). Ou seja, todo fenômeno é composto de pelo menos duas dimensões de quantidade.

Proposição C: A realidade fenomênica é uma matriz bidimensional de informação que opera numa hologramática.

Axioma # 16: A consciência é composta por quantidades, assim como os fenômenos; porém, na memorização ou tradução estas quantidades são convertidas em qualidades ou qualia.

Não há qualidade da inconsciência, pois a qualidade é parte-produto da maquina de tradução simultânea à consciência.

Axioma # 17: Há um acausal que é causado mas nada causa (qualidade), e há um acausal que não é causado mas causa (Evento).

Proposição D: Evento e qualidade podem se conectar, produzindo um curto circuito ou colapso do causal e do acausal - no que chamamos "Magia".

Teorema a: Todo fenômeno se atualiza possuindo características de Evento, ou seja, um mínimo necessário de acausalidade, dado o teorema de Gödel.

Teorema b: É a parcela de acausalidade que separa o intenso em extenso, ou seja, no virtual e no atual.

Proposição E: A incerteza da atualização duma função de onda decorre de sua parcela de acausalidade.

Proposição E-2: A função de onda é a máquina virtual de tradução entre o virtual e o atual.

Proposição E-3: A repetição ao infinito da função de onda conduz a sua atualização plena, ou seja, no limite, ela esgota seu potencial e se torna puro fenômeno.

Teorema c: As leis da física são um filtro, tela, rede ou membrana.

Axioma # 16: Há pelo menos uma lei da física que é acausal, ou seja, um Evento, da qual se possa decorrer outras.

Axioma # 17: Como a função de onda se distribui segundo leis físicas, há pelo menos um elemento acausal (Evento) compondo as funções de onda, consequentemente o mundo fenomênico.

Axioma # 18: Todo fenômeno portanto se atualiza possuido por acausalidade parcial, ou seja, é parcialmente eventual. (confirmando o Teorema a).

Axioma # 19: O Acausal é a superfície nula ou limite da causalidade, quantidade = 0.

Axioma # 20: Na ausência de quantidade/causalidade, Qualidade e Evento se igualam (=0).

Axioma # 21: Como não pode haver qualidade da inconsciência, é possível a consciência da igualdade entre Qualidade e Evento ausente de causalidade.

Axioma # 22: O mundo fenomênio existe no mútuo enredamento entre o causal e o acausal, no qual o causal não é violado mas sim apropriado/possuído na emergência de Evento.

Axioma # 23: Há uma quantidade igual a zero, ou seja, um ovo cósmico onde Qualidade e Evento estão implicados; vazio prenhe de potencial.

Axioma # 24: Toda a superfície de informação causal está em contato com o ovo cósmico, divididos apenas por uma máquina virtul de tradução das leis físicas. O Ovo cósmico se desdobra em evento e qualidade na interseção com a causalidade, mas simultaneamente existe em um estado de implicação virtual (não deixa de ser um ovo).

Axioma # 25: Assim como o limite mínimo da quantidade é o ovo cósmico, o limite máximo do ovo cósmico é sua pura atualização, ou seja, seu pleno aprisionamento na rede causal em forma de causados não-causadores (qualidade) e causadores não-causados (quantidade), ao que chamamos de Fim dos Tempos.

Axioma # 26: O Fim dos Tempos é o limite máximo fenomênico causal, e como tal, o oposto preciso do ovo cósmico.

Axioma # 27: Assim como o ovo cósmico existe simultaneamente a sua atualização em um mundo fenomênico, o Fim dos Tempos emana do mundo fenomênico como seu limite último, em simetria com o ovo cósmico.

Proposição F: O mundo fenomênico existe como que pendurado entre o ovo cósmico e o Fim dos tempos, ambos limites inalcançáveis mas potenciais ou virtuais.

Questão: É o mundo fenomênico hologramático?

Questão: É mesmo a superfície de quantidade hologramática?

Questão: É o ovo cósmico hologramático?

Questão: Qual é a relação entre a matriz de qualidade e a matriz de quantidade?

Bug-fix: há uma contradição quanto ao status filosófico da consciência. Ela é ou não é fenômeno? Todo fenômeno é causal?

Mr. Six às 5:13 AM

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Segunda-feira, Julho 27, 2009

Para refletir depois, sobre o enforcado:

"In his study of the form that masochism takes in modern man, Theodor Reik puts forth an interesting view. Mas¬ochism is more widespread than we realize because it takes an attenuated form. The basic dynamism is as follows: a human being sees something bad which is coming as inevitable. There is no way he can halt the process; he is helpless. This sense of helplessness generates a need to gain some control over the impending pain-any kind of control will do. This makes sense; the subjective feeling of helplessness is more painful than the impending misery. So the person seizes con¬trol over the situation in the only way open to him: he con¬nives to bring on the impending misery; he hastens it. This activity on his part promotes the false impression that he en¬joys pain. Not so. It is simply that he cannot any longer en¬dure the helplessness or the supposed helplessness. But in the process of gaining control over the inevitable misery he be¬comes, automatically, anhedonic (which means being unable or unwilling to enjoy pleasure). Anhedonia sets in stealthily. Over the years it takes control of him. For example, he learns to defer gratification; this is a step in the dismal process of anhedonia. In learning to defer gratification he experiences a sense of self-mastery; he has become stoic, disciplined; he does not give way to impulse. He has control. Control over himself in terms of his impulses and control over the external situation. He is a controlled and controlling person. Pretty soon he has branched out and is controlling other people, as part of the situation. He becomes a manipulator. Of course, he is not consciously aware of this; all he intends to do is lessen his own sense of impotence. But in his task of lessen¬ing this sense, he insidiously overpowers the freedom of others. Yet, he derives no pleasure from this, no positive psychological gain; all his gains are essentially negative."

(VALIS, Philip K Dick).

Mr. Six às 2:52 AM

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Terça-feira, Julho 14, 2009

"Kali pode ser cultuada por qualquer coisa oferecida sem hipocrisia. Melhor de tudo, ela gosta de cheiros sensuais, como sândalo, "musk", patchouli, e cânfora. Ela gosta também de guirlandas de flores vermelhas, música rítimica, dança sensual, vinho puro e outros intoxicantes como maconha. Kali gosta de riso espontâneo, músicas devocionais, amor passional e uma mentalidade de "tudo ou nada". Kali pode ser cultuada diretamente através do corpo da mulher. Ritos de amor tântricos são a forma ideal de se cultuar Kali. Durante esses ritos o yoni (vagina) deve ser honrado e ofertas altruístas feitas. Quando Kali desperta em sua parceira feminina, amor toma uma potência exaltada e renovada. O poder-kali estende do erotismo do começo ao fim dos tempos." (Sex Secrets)

Mr. Six às 7:33 PM

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Quinta-feira, Abril 23, 2009

Poesia Mística

A longa madrugada escorrega faminta
com suas luzes de postes zumbintes
e o vento seco que arrasta a poeira.
Caminho esquálido pelos corredores
[de sombra]
ciente de que não estou sozinho
ele me dá vida
me sustenta
me acalenta
semente divina concedida aos mortais!
me dá ferro
proteína
sódio
gordura
energia
com ele tenho a força para dizer
venha, longa madrugada!
EU
SOBREVIVO!
com o amendoim.

Mr. Six às 5:22 PM

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Segunda-feira, Abril 13, 2009

Esse fim de semana viajei pra uma cidadezinha lindíssima que tem por aqui na serra do cipó/MG. Descobri esse lugar ano passado e desde então já fui cinco vezes lá, toda chance que tive. Eu dizia "não tem como ficar mal lá", porque não tem mesmo: o astral do lugar é tão perfeito, a paisagem tão bonita, os moradores tão acolhedores... que qualquer problema fica pequeno demais.

Dessa vez fui eu e um amigo, de carro. Armamos nossa barraca e eu tava com uma dor de cabeça ferrenha. Tomei um analgésico e tirei uma soneca, mas num adiantou. A cidade fica num vale, logo ao lado de uma montanha maravilhosa cujo cume fica quase sempre coberto de nuvens (o Pico do Breu). Entre a cidadezinha e a montanha tem uma planíce erma por onde passa um rio. Cruzamos o rio pela ponte toda vez que vamos para as cachoeiras. Pois bem, nessa noite eu fui até essa ponte, com meu amigo, e fumamos um baseado lá. Minha intenção era antes de tudo dar uma afogada na dor, pra ver se eu conseguia curtir essa noite. Ficamos lá contemplando o céu estrelado, a lua cheia radiante, o vento gelado que empurra as nuvens em direção à cidade (mas elas nunca chegam a tapar o céu... a sensação que tenho é que o pico "corta"-as no meio e o céu fica coberto de nuvens de ambos os lados, mas não imediatamente acima.

Depois de um estranho encontro com duas pessoas inusitadas na ponte, voltei para os bares, com a dor atenuada. Tomei umas cachaças e fui me soltando. O bar se chama "Bode Marley"; rolava The Doors e uns jazz no som, tava relativamente vazio. Com a dor anestesiada pelo alcool e pela maconha, e já bastante no clima do bar, puxei papo com umas meninas (creio que eram namoradas) que estavam sentadas ao lado. Conversamos um bocado, até que me bateu um sono e fui dormir.

No dia seguinte fui subindo a montanha de cachoeira em cachoeira. Cada vez que eu chegava em um lugar especial, eu tirava uma música de improviso de minha flautinha de bambu. Não digo que SEI tocar, mas nesses lugares e momentos, onde minha única audiência é o espírito de um local, a coisa flui naturalmente... e o vento parece responder ao som. Gosto de flautas por causa disso: como instrumentos de sopro, elas tem ao meu ver um parentesco muito forte com a música que o vento faz.

Subimos até a última cachoeira e lá eu nadei... um paredão de uns quarenta metros de altura de onde cai a água. Quando desci de novo para a cidade, eu me senti reenergizado. Estava meio adoentado aqui em BH, e uma das razões pelas quais fui pra essa cidade foi pra me reequilibrar - corporal, psíquica e espiritualmente. Tava precisando dessa limpeza, e nada como um banho de cachoeira.

Acho que só aí é que entrei no clima do lugar. Me senti bem como não me sentia há muito tempo. Nessa noite, sábado, eu decidi rachar um blotter de ácido com meu amigo. Tava com ele na carteira há meses, sem coragem/tesão de tomar. Senti que era a hora... por mais que rolasse um cagaço básico. Era um experimento também: queria ver como ia ser viajar em "público", com a ressalva que eu tinha mato de montão para todos os lados se eu quisesse ficar sozinho em meio à natureza (e aliás, que natureza!).

Enquanto descia pra ponte de novo, visando ficar lá até o doce bater, topei com as meninas da noite anterior. Elas tinham acabado de tomar um doce também, e descemos juntos pra montanha. Nos sentamos debaixo de uma mangueira, em frente à planice alagada pelo rio. Voltei pra barraca pra caçar um cobertor pra me enrolar porque ventava muito frio, e quando fui de novo pra planíce, elas tavam subindo pra um bar. O doce já tava batendo e foi me dando uma náusea muito característica (e já familiar, em certa medida). Tava afim de ficar sozinho, não tava à vontade tendo de "atuar" socialmente no estado em que eu estava. Desci pra ponte. As nuvens dançavam ao redor da lua cheia; às vezes ela se escondia, às vezes ela raiava e a serena luz caía sobre o vale como um manto. Fiquei a olhar as nuvens e enxergar formas nelas... Formas míticas e impessoais, formas gigantes de uma história que não conheço por inteiro. Uma veio como um dragão chinês, dançou e se desfez... Outra formou um cavaleiro com uma lança em punho. Algumas nuvens em forma de carangueijos desfilaram pelo céu. Em seguida veio uma similar a um dinossauro... que foi se desfazendo e se convertendo num fóssil. Eu estava ali sozinho e absorto neste espetáculo do vento uivante.

Em um certo momento decidi voltar às pessoas. Fui subindo a estradinha de terra charmosa e escura, rodeada por árvores por ambos os lados, com algumas casinhas simpáticas com cachorros latindo nos terreiros. Cruzei com um pessoal na subida, e reconheci uma garota que estava com eles - já tinha visto-a na faculdade. Eu estava no ápice da onda nesse momento. Sem refletir, cumprimentei-a, ela devolveu, e conversamos. Não sei dizer nem exatamente de que, as coisas aconteciam muito rápido e eu respondia espontaneamente. Descobri que ela faz o mesmo curso na faculdade que eu, e mais um pouco... e logo depois ela seguiu o caminho dela e eu o meu. (ela volta a aparecer na história, não contei isso à toa).

A noite foi deslizando... às vezes eu me nauseava, às vezes eu relaxava. Me incomodava não conseguir conversar direito: as frases ficavam truncadas, eu não entendia e não era entendido... Optei por ficar calado a maior parte do tempo, só acompanhando as pessoas. Sentia um desejo enorme de poder me abrir, me entregar a tudo que acontecia, mas não sentia que o mundo estava pronto pra receber isso. Tenho esse desejo e essa falta - da comunicação sincera e verdadeira, entre dois (ou mais) seres humanos. Me ressinto de não poder ter isso com os montes de pessoas interessantes que vejo por aí... São muitos códigos, muitas etiquetas, muitas barreiras e neuroses na dança da aproximação. E ali, nesse estado vulnerável, nu perante o mundo, eu não tive a coragem de me expor, de dizer o que eu pensava e o que eu sentia. Eu imaginei que seria assim, viajar em público. Era isso que eu estava enfrentando ali.

Em um momento, estavamos todos descalços sobre a mangueira, sem os casacos (decidimos não nos importar com o frio... e ele não se importou com a gente), dançando e cantando para a lua, pro vento e pro lago. Em outro momento, estavamos de volta ao bar curtindo um samba, eu ainda calado apenas contemplado. Eis que então volta a menina que encontrei no caminho e se senta ao meu lado. Deixei de dizer que ela era lindíssima; traços finos e suaves, uma corporalidade fluida, modos feéricos... Ela me cumprimentou e eu respondi, dizendo "nossa, aquela hora em que conversamos eu estava muito louco, tomei um doce... na verdade ainda estou", e ri. Um pouco sem graça, um pouco que me desculpando pela dificuldade de me comunicar, um pouco triste com isso. Ela respondeu: "É... Mas é sempre recíproco, né?". Ela estava viajando também, hahaha. E nos falamos, as conversas também se quebravam, e ela também falava coisas nada com nada - mas quando isso acontecia ela emendava, com o sorriso mais sereno da terra, "brincadeirinha", e continuava a conversa. Sem constrangimento. Ficou lá mais um pouco, deu uma rodada e porfim se foi para dormir, despedindo-se de um modo doce e atencioso. Algum tempo depois voltei à minha barraca e pensei, e pensei, e viajei, e compus um poema, e a todo momento ela me voltava; como exemplo; como ilustração pra como eu poderia agir, como uma sugestão graciosa pra pergunta que SEMPRE vem nas viagens: quem eu quero ser? Como os outros me veem e como quero ser visto? Como fazer isso, como exalar a radiância que sei que mora aqui dentro, mas que vive suprimida, afogada pelas barreiras do ego/neurose...? Eu não quero ser só o cara esquisito que ficou calado a noite inteira: quero tocar a vida das pessoas com a mesma suavidade com a qual fui tocado pela moça, pela fada louca da noite de sábado.

Muito disso é pessoal, muito disso não diz respeito ao lugar e sim a mim e ao ácido, mas acho sinceramente impossível separar as coisas. Foi tudo mágica; não feitiçaria, a-la sigilos & cia, mas Mágica mesmo, Mito e Mistério encarnados. E agora estou de volta a cidade e a vida continua (:

Mr. Six às 7:13 PM

Comments:


Quando acordo, toda manhã
eu troco de pele.
Meus restos ficam por aí...
acumulados nos lugares que frequento.
Às vezes -
não sei se sou
a pessoa que saiu
ou a casca que ficou.

Mr. Six às 4:49 PM

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O mundo não faz sentido, portanto nós também não precisamos de fazer.

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